Escrevendo uma Nova História

Diác. Caio Cezar   •   15 abril 2016

Originado do vocábulo grego ἱστορία, a palavra história denota o sentido de pesquisa ou, o conhecimento advindo de uma investigação. É a ciência que estuda o homem e sua ação no tempo e no espaço. Um dicionário da língua materna de grande credibilidade como o Houaiss define história como sendo o conjunto de conhecimentos relativos ao passado da humanidade, segundo o lugar, a época e o ponto de vista escolhido. Assim, compreendemos que a história está intrinsecamente ligada ao fator tempo, e com isso, podemos comparar o tempo a um “pedaço de papel” onde a história é escrita e registrada.

Em uma observação rápida e simples, podemos sugerir que escrever uma história pode ser algo fácil levando-se em consideração que temos ao nosso alcance a possibilidade de modificar os fatos, os resultados e os acontecimentos ao nosso bel prazer. Podemos criar e extinguir personagens, provocar com o simples deslizar da caneta uma situação de alegria ou de tristeza, ou até mesmo consertar situações complexas. Para isso basta ter ideias, um pedaço de papel e uma caneta em mãos.

Por outro lado, podemos sugerir que viver ou protagonizar uma história é algo mais complexo, tendo em vista os problemas que inevitavelmente surgem durante a vida, o nosso desconhecimento acerca do futuro, e isso para não mencionar o fato de que não temos o pleno poder de controlar situações, modificar os fatos que gostaríamos que não tivessem acontecidos, acrescentar tempo suficiente para vivermos com abundância as melhores etapas da nossa vida, etc. Assim, tendo isso em mente, compreendemos a importância da necessidade de se viver em cada tempo da vida com sabedoria e prudência a fim de se obter bons resultados ao longo de nossa jornada.

Assim, viver nada mais é do que escrever uma história; com seus pontos altos e baixos, alegres e tristes, fáceis e complexos, etc., sem, contudo, possuirmos o pleno controle sobre os fatos que integram a integram. Não há como simplesmente passarmos uma borracha naquilo que, por nós, foi escrito de maneira errada, nem tampouco determinar finais felizes a todos os momentos difíceis da vida.

Lembremo-nos de uma informação bíblica, muito conhecida em todo o mundo, a qual informa-nos de que no princípio de todas as coisas, criou Deus o céu e a terra, esta, porém, era sem forma e vazia. E movido pelo desejo de criar algo que pudesse refletir a sua glória e imagem, Deus, pelo poder da sua palavra, dá início a um projeto, e diz a bíblia que ele organiza aquele lugar - antes sem forma - em um belo jardim.

Primeiro Ele estabelece a separação entre luz e trevas, criando uma expansão no meio das águas e as separando, dando assim a formação do céu e dos mares. Do meio dos mares Ele fez surgir a porção seca que chamamos de terra. Criou os luminares, Sol, Lua e estrelas, para governar o dia e a noite e marcar as estações. Ordenou a terra para que produzisse ervas que dessem sementes, e árvores que produzissem frutos segundo sua própria espécie. Ordenou ao mar para que criasse seres de alma vivente, e assim foram criados os primeiros animais, peixes, aves, etc. Quando o firmamento estava concluído, Deus elevou os seus olhos em direção ao Oriente do Éden, e fez brotar ali todo tipo de árvore agradável aos olhos e boa para servir como alimento. Criou um rio que saía do Éden e que o regava, e assim, um magnífico jardim fora criado naquela região.

Agora, Deus resolve agora dar o último e mais belo toque de todos em sua criação. Ele toma o pó da terra e cria um boneco de barro, assopra em suas narinas, e de repente aquele simples boneco começa a criar ossos, carne, nervos, pele, até se tornar um ser de alma vivente. E Deus o chamou homem.

Desse mesmo ser, feito à imagem e conforme a semelhança da Deus, capaz de pensar, amar, exercer seu senso de justiça; Deus o coloca no belo jardim que outrora havia criado, derrama sobre ele um profundo sono, e retirando uma de suas costelas, o SENHOR cria para ele uma companheira, criando um belo projeto chamado família.

Ocorre que no meio daquele jardim Deus colocou duas árvores muito distintas das demais. Uma, a qual Ele se referia como árvore da vida, a outra, conhecida como árvore da ciência do bem e do mal. E disse Deus ao homem que havia criado: do fruto de todas as árvores comereis, mas no dia em que provar, ou tocar, no fruto da árvore da ciência do bem e do mal, certamente morrereis.

Sabendo disso, Satanás, o anjo que outrora fora chamado de Lúcifer (filho da luz) e que nesse momento da história já havia sido expulso do reino dos céus (Is 14.12-15), em certo momento dessa história, utiliza-se de seus esquemas enganosos e cheios de mentira para criar um problema na criação de Deus. Valendo-se do corpo de uma serpente, Satanás estabelece um diálogo com a mulher e lhe diz:

— É assim que Deus disse, para não comer de todo fruto que há no jardim?

— Do fruto das árvores do jardim comeremos, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. Disse a mulher à serpente.

— Certamente não morrereis, porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal - Disse a serpente à mulher.

O diálogo entre a mulher e a serpente deveria ter acabado a partir do momento em que ele propôs a ela, a possibilidade de agir de forma contraria a palavra que Deus lhes havia dado. Porém diz a Palavra que ela olhou, desejou, admirou o fruto daquela árvore, o tomou e o comeu.

Satanás apresentou a ela apenas as "características visíveis" do pecado (desejável, agradável à vista, bom para se provar), mas em momento algum ele deixou claro qual seria a verdadeira consequência desse ato de desobediência - a saber, a morte espiritual e o rompimento da comunhão com Deus.

Ao dar ouvidos às palavras de Satanás, e ceder ao desejo da tentação, Eva consequentemente se esqueceu de todas as palavras que Deus lhes havia dito (certamente morrerás). E ao dar vazão ao desejo de agir conforme as palavras de Satanás, provando do fruto da árvore que Deus lhes haviam dito "dela não comerás", e também oferecendo a seu companheiro Adão, seus olhos foram abertos e ambos reconheceram que estavam desprovidos de vestes e se envergonharam. Agora, a dispensação da inocência havia se encerrado, e o que lhes restaram, era apenas uma consciência manchada pela desobediência que agora os acusava de terem feito algo que não deveriam.

Ignorando os conselhos de Deus, o homem fez o que parecia bom aos seus próprios olhos, permitindo assim que suas histórias tivessem o curso totalmente mudado. De um caminho de felicidade em abundância para entrar em um caminho de decepção e vergonha. De uma vida de comunhão com o Criador para uma vida longe dele. Da condição de uma vida eterna, para desfrutar agora de apenas de alguns anos sobre a face da terra.

Envergonhados, eles tomaram para si folhas de figueiras para se cobrirem, todavia já não eram mais inocentes, e ao ouvirem a voz de Deus a consciência de ambos os acusaram, e eles se esconderam por detrás das árvores do jardim.

Um criminoso consciente de seus atos, ao infringir as regras de conduta de uma sociedade organizada entende que o Estado o procurará para que pague pelos seus crimes, por isso ele foge. Um sentimento semelhante, agora ardia na consciência de Adão e Eva, pois, sendo conhecedores do bem e do mal eles sabiam o que tinham feito. E tendo Deus os encontrados, os puniu, e os expulsou do jardim. Uma vida de eterna comunhão com Deus agora havia ficado para trás. A inocência já não existia, apenas uma mente que os acusava dia e noite.

Uma nova fase se iniciava agora em suas vidas. Cansados e com dores, o homem trabalhava a fim de prover o seu sustento, enquanto aguardava seus dias chegarem ao fim. A mulher com muita dor gerava e concebia filhos. E juntos educavam agora as crianças que cresciam lado a lado com o pecado.

Em determinado momento daquela história, a Bíblia diz que dois dos filhos daquele casal comparecem diante de Deus para lhe ofertarem sacrifícios, eram estes Caim e Abel. Porém, um fato interessante aconteceu, pois, a Bíblia diz que Deus se atentou para Abel e para sua oferta, mas não se atentou para Caim e nem para a sua oferta. Versículos adiante Deus afirma que algo estava errado em Caim quando diz: “Se porventura fizeres bem, não haverá aceitação para ti? ” Os pais abriram a porta para o pecado, e este agora atingia o coração de um de seus filhos. E Caim, não dando ouvidos à voz de Deus, se retirou de sua presença com o coração cheio de irá é inveja. E diz a Bíblia que em um determinado dia, estando ambos os irmãos no campo, Caim se levanta contra Abel, e o mata friamente.

Agora, um abismo puxava outro abismo. O que parecia inofensivo aos olhos daquele casal agora se tornou uma imensa “bola de neve”, fugindo de seu controle e alcançando toda sua família.

E agora, temos um pai sentindo a dor do fracasso, e talvez se perguntando o porquê de tudo aquilo. Uma mãe chorando a morte de um filho, e indagando-se pela conduta outro, o qual agora se apresentava diante do Eterno Juiz para ser penalizado. Uma família criada para usufruir do benefício da vida eterna, agora destruída pela morte.

Após esse fato, Caim se retira para as terras de Node, e edifica ali uma cidade com o nome de seu filho Enoque, e uma geração começa a se formar naquelas regiões. Observamos um pouco mais adiante, que na história dessa linhagem outros homicídios aconteceram. Romperam a instituição do casamento preconizado por Deus tomando para si mais de uma esposa, e iniciando a prática dos primeiros casamentos polígamos registrados na história bíblica. O homem se corrompia dia após dia.

Observemos que após a queda do homem e sua respectiva expulsão do jardim de Deus, o homem entrou em um processo de declínio moral e espiritual, permitindo que todo tipo de mal passasse a habitar em seus corações.

Deus havia colocado sobre os ombros daquele casal, um projeto chamado família, mas em razão da desobediência do homem, esse projeto agora estava sendo destruído.

Quem olhava agora para esse projeto encontrava a desobediência de um casal, a marca do sangue de um inocente derramado pelas mãos de seu próprio irmão. E podiam até pensar, tudo está acabado.

Como foi dito no início desse texto, escrever uma história pode ser fácil pois, podemos controlar os fatos e as circunstâncias que os personagens experimentam. Porém, viver uma história, se torna algo mais complexo, pois não somos quem determinamos como tudo irá terminar. E em muitas vezes, mesmo querendo fazer as coisas corretas, acabamos falhando. Mesmo querendo dizer algo amigável, acabamos ferindo. Mesmo querendo educar de forma correta, acabamos errando. Tudo isso nós percebemos na história brevemente narrada. Mas no meio de toda a situação caótica em que aquela família estava, percebemos algo extraordinário e maravilhoso.

A Bíblia diz que, no meio de todos esses acontecimentos, Eva concebeu uma criança, e tomando-o em seus braços disse: “Outra semente o Senhor nos deu em lugar de Abel, porquanto Caim o matou...", e chamou o seu nome de Sete”. E é no significado atribuído ao nome de Sete que redescobrimos um novo trabalhar de Deus em meio a toda essa crise.

Seu nome significa "renovo", "um novo início", "recomeçar", etc. Em outras palavras, ao dar-lhe esse nome, Eva estava dizendo: "O Senhor nos está dando a oportunidade de recomeçarmos novamente". Em outras palavras, Sete representava o reescrever de uma nova história que o Senhor agora redigia na vida daquele casal. E diz a Bíblia Sagrada que após o nascimento de Sete, “... o nome do Senhor, começou a ser invocado”.

A lição que essa história nos deixa, é a de que não importa a situação em que você esteja vivendo no presente momento, ou as circunstâncias ruins pelas quais você está passando, saiba que Deus sempre está pronto rescrever um novo recomeço e uma história na sua vida.